quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Manual de Manutenção de Máquinas de Exploração Florestal


Download 1 - Dropbox
Download 2 - Mega
Download 3 - Google Drive
Download 4 - Box

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Powerpoint sobre Prevençao de Riscos Profissionais no Trabalho de Exploração Florestal


Download 1 - Dropbox
Download 2 - Mega
Download 3 - Google Drive
Download 4 - Box

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Manual de Diagnóstico e Meios de Controlo da Processionária do Pinheiro


Download 1 - Dropbox
Download 2 - Mega
Download 3 - Google Drive
Download 4 - Box

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Documento sobre a Doença da Tinta do Castanheiro


Download 1 - Dropbox
Download 2 - Mega
Download 3 - Google Drive
Download 4 - Box

domingo, 27 de outubro de 2013

Caracterização da Erva-Cidreira


Download 1 - Dropbox
Download 2 - Mega
Download 3 - Google Drive
Download 4 - Box

sábado, 26 de outubro de 2013

Manual sobre Sementeiras de Plantas


Download 1 - Dropbox
Download 2 - Mega
Download 3 - Google Drive
Download 4 - Box

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Exercícios sobre Espécies Florestais


Download 1 - Dropbox
Download 2 - Mega
Download 3 - Google Drive
Download 4 - Box


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Manual - Conhecer as Árvores, Compreender a Floresta


Download 1 - Dropbox
Download 2 - Mega
Download 3 - Google Drive
Download 4 - Box

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Powerpoint sobre Plantas Medicinais


Download 1 - Dropbox
Download 2 - Mega
Download 3 - Google Drive
Download 4 - Box


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Powerpoint sobre A História da Planta


Download 1 - Dropbox
Download 2 - Mega
Download 3 - Google Drive
Download 4 - Box


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Powerpoint sobre Hortas Domésticas


Download 1 - Dropbox
Download 2 - Mega
Download 3 - Google Drive
Download 4 - Box


domingo, 20 de outubro de 2013

Powerpoint sobre Fitossanidade


Download 1 - Dropbox
Download 2 - Mega
Download 3 - Google Drive
Download 4 - Box

domingo, 6 de outubro de 2013

Taxa de mortalidade das árvores anciãs está a aumentar


As árvores com 100-300 anos de idade estão a morrer mais depressa num fenómeno global, em todas as latitudes e diferentes tipos de ecossistemas.

Estão a ser verificados aumentos alarmantes, por todo o Mundo, na taxa de mortalidade nas árvores com 100-300 anos de idade. São os maiores organismos vivos, as grandes e velhas árvores, responsáveis por albergar inúmeras aves e muita outra vida silvestre, que estão a morrer. 

O alerta foi publicado na Science e verifica o incremento na taxa de mortalidade das árvores anciãs em muitas das florestas do planeta, savanas, áreas agrícolas ou mesmo cidades. É um problema global e está a ocorrer em todo o tipo de ecossistemas.

As árvores anciãs são elementos fundamentais de muitos ambientes naturais e humanizados, mas as suas populações estão a morrer mais rapidamente. Os investigadores alertam para a necessidade de investigação para apurar as causas por trás deste fenómeno, para adopção de estratégias de gestão, alteração de políticas, perante o risco destas árvores desaparecerem dos ecossistemas levando à perda dos biota associados e à perda das suas funções nos ecossistemas.

Os dados analisados remontam até aos anos de 1860. O estudo permitiu concluir, por exemplo, que as árvores anciãs nas florestas da Austrália, estão a morrer em massa e a uma taxa dez vezes superior a uma taxa normal. Aparentemente, nestas florestas, tal está a acontecer devido ao uma maior vulnerabilidade perante os incêndios em consequência da seca, elevadas temperaturas, à exploração florestal entre outras causas. Mas esta tendência repete-se por muitas outras zonas do planeta e em todas as latitudes.

Fonte: Nuno Leitão/ScienceDaily

sábado, 5 de outubro de 2013

Árvores das florestas nubladas bebem água pelas folhas


Muitas das árvores das florestas tropicais montanhosas sobrevivem recorrendo a água retida pelas folhas a partir das nuvens, quando a água nos solos escasseia.

As árvores nas florestas tropicais de montanha, florestas nubladas, consomem água não só pelas raízes como directamente pelas folhas, verificaram os investigadores da Universidade da Califórnia. 

Este mecanismo é uma estratégia de sobrevivência essencial das árvores neste meios com nevoeiro. Caso as árvores tivessem apenas acesso à água dos solos pelas suas raízes teriam o seu desenvolvimento comprometido, ou seja, sem o nevoeiro as montanhas tropicais seriam zonas secas e a água nos solos seria por diversas vezes insuficiente para estas árvores subsistirem. 

Os investigadores alertam para o facto de que as alterações climáticas estão a provocar a diminuição de nevoeiro e a ameaçar este raro e já ameaçado ecossistema das montanhas tropicais. A diminuição do coberto de nuvens nestas zonas foi já correlacionado com o desaparecimento de espécies animais destes ecossistemas, como é o caso de espécies de sapos e de salamandras.

Nestas florestas, as folhas das árvores estão constantemente banhadas pelas nuvens, ficando húmidas. As árvores mais comuns destas florestas consomem essa água das folhas quando a água dos solos é insuficiente. Muitas florestas nubladas enfrentam uma estação seca, altura em que a principal fonte de água passa a ser a humidade retida nas folhas a partir das nuvens. Esta capacidade de consumo de água varia com a espécie, no entanto, são as árvores que têm mais capacidade para consumir água pelas folhas, que são mais vulneráveis à diminuição do coberto de nuvens.

Fonte: Nuno Leitão/ScienceDaily

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Dados genéticos do fungo dos freixos foram publicados



Os primeiros dados genéticos do fungo mortífero que ameaça os freixos na Europa foram disponibilidades on-line e abertos à análise da comunidade científica internacional. 

O fungo (Chalara fraxinea) mortífero para os freixos e que atualmente ameaça uma grande parte das árvores do Reino Unido, tem agora parte do RNA sequenciado, revelando informação sobre a propagação da doença que provoca.

Trata-se dos primeiros dados genéticos deste fungo e foram publicados on-line por investigadores britânicos, como forma de cativar apoio da comunidade científica internacional na análise dos dados preliminares.

O objectivo essencial a longo prazo é determinar como é a doença provocada pelo fungo e qual a sua origem no Mundo. No entanto, estes primeiros dados genéticos, obtidos em semanas, permitem já clarificar alguns pontos de interesse e representam o primeiro passo para identificar os mecanismos de produção da doença. A abordagem é idêntica à utilizada no caso do surto de E. coli, no ano passado, que permitiu os investigadores identificar a origem na Alemanha e a propagação da infecção.

O RNA do fungo analisado é obtido a partir dos galhos das árvores afectadas pela doença e que aparece misturado com o RNA da planta. 

A doença foi originalmente observada em 1992, na Polónia, e desde essa altura propagou-se por diversos países europeus, tendo sido confirmada no Reino Unido em 2012.

Fonte: Nuno Leitão/BBC

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Gramíneas

Grama. Capim. Relva. Esta é a forma com que normalmente nos referimos a este grupo de plantas tão particulares, mas quantas vezes nos lembrámos de atentar um pouco mais nelas, compreendê-las e dignificá-las? Provavelmente nenhuma.

As gramíneas são uma vasta família de angiospérmicas (plantas com flor), tecnicamente designada Poaceae (ou Gramineae), de distribuição cosmopolita. A diversidade de espécies que pertencem a este grupo é enorme, cerca de 10000 espécies distribuindo-se por cerca de 650 géneros, apenas superada pelas orquídeas (Orchidaceae) e as compostas (Asteraceae), no universo do reino vegetal.

É uma família extremamente versátil pois, através desta miríade de espécies que contém, e não fugindo muito a uma morfologia padrão, conseguiu ocupar quase todos os tipos de habitat disponíveis, em todos os climas. Pertencem a esta família desde plantas muito pequenas, como a vulgar Poa annua que surge entre as pedras da calçada até aos bambus que podem exceder 30 metros de altura. Podem ser desde aquáticas, inclusivamente, de águas salgadas, até formar florestas ou viver nas fendas das rochas mais secas e desertos.

No entanto, no nosso país, as gramíneas nativas (a enorme cana, Arundo donnax, é uma espécie cultivada que se assilvestrou tornando-se invasora) são bastante mais modestas, só por excepção tomando grandes dimensões como é o caso do caniço (Phragmites australis), que pode atingir quatro metros de altura e que habita lugares pantanosos por todo o país.

Uma grande parte das gramíneas que se observam em Portugal optou por ser anual, em resposta ao clima mediterrânico que caracteriza boa parte do país, e, de certo modo consequentemente, de pequenas dimensões. A implementação desta estratégia, que aparece em muitas famílias de plantas no nosso país, permite a estas ocupar quer sítios muito secos no Verão, quer terrenos cultivados ou de qualquer outro modo frequentemente perturbados, como é grande parte do nosso território. As gramíneas anuais sobrevivem sem nenhum esforço especializado no sentido de resistir à secura porque se limitam a passar o Verão na forma de semente. Uma estratégia tão simples e de baixo custo como esta, e ainda assim, tão frutífera, facilmente se tornou “popular”, pelo que inúmeras espécies de gramíneas a usam. Podemos citar como exemplo as gramíneas das pastagens secas do sul do país – géneros Briza, Vulpia, Bromus, Stipa, Hordeum, Brachypodium, Taeniatherum, Gastridium, Aegilops, entre outros.

Porém, há uma considerável diversidade de gramíneas perenes, que é sobretudo notável em habitats menos hostis, onde a humidade mais duradoura o permite. Em zonas pantanosas, o caniço é uma delas, mas também plantas dos géneros Cynodon, Holcus, Agrostis, Panicum, Molinia, Paspalum, que formam relvados especialmente verdes e densos no Verão em zonas húmidas; e a morraça (Spartina) nos habitats húmidos com influência marinha. Nos pinhais arenosos, nas zonas mais frias no inverno, pode geralmente ser encontrada Stipa gigantea, uma gramínea que no Verão adorna o campo com as suas grandes inflorescências douradas.

Algumas espécies são muito frequentes mesmo em habitat citadino. É o caso de Piptatherum miliaceum, uma gramínea perene com a forma de uma graciosa cana, Hordeum murinum, as vulgares “espigas” das brincadeiras de infância e Poa annua, habitante frequente dos interstícios entre as pedras da calçada.

Mas afinal, o que são as gramíneas?
A morfologia típica de uma gramínea é muito semelhante em todas as espécies: um caule geralmente oco, com nós engrossados, no qual se inserem as folhas com uma forma tendencialmente linear, e de nervação paralela (em todas as espécies portuguesas). Estas folhas têm uma morfologia muito típica: a parte proximal forma uma bainha que envolve parte do caule, a qual termina no limbo foliar. Na articulação entre estas duas partes existe um prolongamento – a lígula – em forma de membrana ou de uma fiada de pêlos.

Porém, a característica mais marcante desta família reside na morfologia da flor. Esta é um exemplo de redução floral fantástico. Entenda-se por “redução”, o processo evolutivo que conduz à perda de estruturas que, outrora funcionais, terão perdido a sua função e, como tal, razão de existir.

A sua aparente simplicidade estrutural fez com que se tenham considerado as gramíneas como plantas primitivas. Essa ideia está, contudo, ultrapassada.

O diagrama resume de uma forma simplificada uma espigueta – a unidade básica da inflorescência de uma gramínea e com muita importância na identificação das espécies.

As flores das gramíneas, como já referido, são especiais. Não existem pétalas nem sépalas como estamos habituados, já que estas plantas não precisam delas para atracção de insectos: a polinização é feita pelo vento (polinização anemófila). Tudo o que resta destas peças florais, que terão existido num passado distante, resume-se a duas minúsculas escamas – as lodículas – que ajudam na abertura da flor (afastamento da lema e da pálea), expondo assim os órgãos reprodutores. Todas as outras peças – lema, pálea e glumas – são brácteas, isto é, folhas modificadas que, para além de servirem para a protecção das flores como geralmente acontece, aqui têm também uma função bastante importante na dispersão da semente. Esta função é complementada pela presença, em muitos géneros, da arista – um prolongamento rígido da lema (ou das glumas) provido de diminutos “ganchos” que se ancoram em qualquer superfície minimamente rugosa ou pilosa.

Quando a flor está aberta (na ântese), e dado que as pétalas estão ausentes, observam-se apenas os estames muito protuberantes e pendentes, libertando quantidades copiosas de pólen, e os estigmas densamente plumosos, também protuberantes. Esta morfologia e comportamento dos órgãos reprodutores, que maximiza a dispersão e captura do pólen, é típica de plantas polinizadas pelo vento, e diferentes variantes são usadas por outras famílias nada aparentadas, como as Fagaceae (carvalhos), Salicaceae (salgueiros, choupos) e Plantaginaceae (tanchagens) – um dos inúmeros casos de evolução convergente.

E o que não são as gramíneas?
A nível mundial existem diversas famílias evolutivamente próximas das gramíneas, incluídas na ordem Poales. Embora algumas sejam de facto muito semelhantes, em Portugal não há motivos para muita dúvida, pois apenas existem quatro destas famílias – Sparganiaceae, Typhaceae, Juncaceae e Cyperaceae – as quais são suficientemente diferentes para não causar confusão após uma observação cuidada da sua estrutura. As duas primeiras famílias constituem plantas de locais pantanosos, morfologicamente bem distintas das gramíneas.

As Juncaceae, pelo contrário, podem já ter semelhanças apreciáveis. Esta família compreende os juncos (Juncus spp.) mas também um género menos conhecido, Luzula, de aspecto graminóide. A principal diferença desta família reside nos caracteres florais – as flores, aqui, não estão organizadas em espiguetas e apresentam três pétalas e três sépalas, ao contrário das gramíneas, muito embora estas peças sejam pequenas e verdes. Além disto, nos juncos as folhas são cilíndricas e não planas (ainda que por vezes enroladas) como nas gramíneas.

As Cyperaceae são tecnicamente mais difíceis de distinguir das gramíneas – a diferença mais importante é apenas o número de brácteas associadas a cada flor. Nas gramíneas, como já foi visto, existem duas – a lema e a pálea. Nas Cyperaceae, apenas uma. Esta diferença, contudo, nem sempre é fácil de observar. Outras diferenças podem ser enumeradas, mas não podem ser generalizadas a todas as Cyperaceae, pelo que, se ausentes, nos deixam na dúvida. Seja como for, a título de exemplo, podemos dizer que as Cyperaceae habitam quase sempre zonas húmidas, apresentam frequentemente caules triangulares, podem não ter folhas e não apresentam a organização típica de espigueta.

Como identificar uma gramínea?
A identificação, ou determinação, de exemplares de gramíneas pode parecer à primeira vista difícil, mas a verdade é que se revela bastante mais expedita para a maioria das espécies do que muitas outras plantas aparentemente simples. Uma grande vantagem é que quase somente através dos caracteres da espigueta e da inflorescência se pode chegar à espécie, o que não surpreende, visto que a parte vegetativa destas plantas é muito idêntica em todas as espécies. A desvantagem é a dimensão reduzida de muitas das flores, que torna a identificação de certas espécies, como por exemplo, Agrostis tenerrima, um verdadeiro trabalho de ourives!

Alguns caracteres importantíssimos a ter em atenção são a dimensão e número de flores da espigueta, a eventual presença de dois tipos de espiguetas diferentes, a presença e o tipo de arista, o arranjo das várias espiguetas no conjunto da inflorescência e o tipo de inflorescência. A título de exemplo, uma gramínea cujas espiguetas são grandes, têm somente uma flor, com arista retorcida, e estão dispostas em “cacho” (panícula) pertence ao género Stipa, sem necessidade de olhar a outros caracteres.

Sua expressão nos ecossistemas.
Alguns ecossistemas são estruturados por gramíneas, como é o caso das estepes. Em Portugal não existem verdadeiras estepes, contudo, as gramíneas são importantes constituintes de diversos habitats, principalmente aqueles que se desenvolvem em locais soalheiros e abertos.
Nos prados calcários que ocupam algumas zonas do país, nomeadamente na região de Lisboa, domina uma gramínea – é Brachypodium phoenicoides, uma planta perene que forma densos tufos que por vezes coalescem num relvado contínuo. Estes prados são habitats riquíssimos do ponto de vista florístico e devem a sua estrutura sobretudo a esta planta, e, possivelmente, devem-lhe até a sua perenização pelo atractivo que B. phoenicoides representa para os herbívoros.

Um caso totalmente diferente é o que sucede nas dunas. Estas formações estão dependentes de duas espécies de gramíneas perenes que nelas se desenvolvem – Ammophila arenaria (estorno) e Elymus farctus. Ambas são imprescindíveis na fixação da areia trazida pelo vento da praia, e, se ausentes, a duna primária (aquela mais próxima do mar) colapsa, o que, ao longo do tempo, pode resultar na degradação de todo o complexo dunar, pois não existe outra espécie que substitua a A. arenaria nem o E. farctus nesta tarefa.

Como terceiro exemplo, refira-se de novo os caniçais. Este é um caso extremo em que o habitat é formado por uma única espécie, uma gramínea (Phragmites australis), sendo um habitat de inegável valor para a avifauna.

Espécies raras.
Embora seja uma ideia estranha para quem nunca pensou no assunto, existem diversas espécies de gramíneas bastante raras, algumas endémicas.
O género Festuca é especialmente propício à raridade. Compreende muitas espécies, todas perenes, habitando diversos habitats. Este género, por alguma razão desconhecida, possui muitas espécies que se restringiram muito no espaço geográfico que ocupam. Destacam-se aqui a Festuca henriquesii e a F. brigantina. Ambas são endémicas de locais muito restritos, a primeira da Serra da Estrela, a segunda de uma formação geológica muito especial existente em Trás-os-Montes, as serpentinas. Ambas estão em perigo de desaparecer, sobretudo F. brigantina, cujo principal factor de ameaça é a destruição do seu habitat pela urbanização, dado que alguns núcleos estão perigosamente perto da cidade de Bragança.

Pseudarrhenaterum pallens é uma outra espécie raríssima. Endémica de Portugal, surge apenas em algumas, poucas, zonas calcárias, principalmente na Serra da Arrábida, onde se encontra também ameaçada pelas actividades humanas. É uma planta perene de matos abertos e fendas de rochas, mas sempre escasseando.

Para finalizar, refira-se Avenula hackelii, endémica da costa sudoeste, onde ocorre em substratos arenosos em populações fragmentadas. Embora ainda não esteja propriamente em vias de se extinguir, encontra-se sob a ameaça severa de pressões urbanísticas e em nítida regressão.

Várias outras gramíneas são muito raras; aqui mencionaram-se apenas algumas das endémicas e em risco. Porém, outras há que, não sendo endémicas, são de ocorrência muito pontual no território nacional. Entre elas refere-se aqui Stipa offneri, um exemplo típico pois apesar de ter uma distribuição generalizada no oeste do Mediterrâneo, o seu habitat preferencial é restrito, limitando-se a fendas de rochas calcárias, por vezes em montanha, e ocorrendo, em Portugal, apenas num local – algumas encostas marítimas da Serra da Arrábida.

Obviamente que todos estes nomes não dizem nada. Por isso convido o leitor a dar um passeio pelo campo, em fins de Maio, talvez munido de uma lupa de bolso, para observar a diversidade de plantas que há neste grupo; reparar no quão diferentes, afinal, elas são, quando olhamos atentamente e quiçá aperceber-se dos pequenos indícios ecológicos que se escondem por detrás da distribuição espacial de cada espécie. Para quem aceita o desafio de identificar uma gramínea (e porque não?), aconselho a consulta de Romero Zarco (1990).

Miguel Porto

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Flora - Compostas

Quem não conhece essas flores tão tradicionais a que chamamos malmequeres? Mas a quantas plantas diferentes é que chamamos este nome? Conheça um pouco mais desta vasta família tão comum e tão numerosa como, muitas vezes, confusa.

Malmequeres, dálias, crisântemos, margaridas, perpétuas, gerberas, e tantos outros nomes familiares… todos pertencem à grande família das Compostas (tecnicamente Asteraceae ou Compositae). Desde a infância mais distante que usamos uma composta como estereótipo da flor, resumindo-a a um disco central circular e um número indefinido de pétalas na periferia. Estas duas características levam-nos imediatamente a identificar o que pensamos ser uma flor. Na realidade, este estereótipo é uma caricatura daquilo que mais único existe nesta família – a forma como muitas flores se uniram, tão bem que muitas vezes julgamos ser uma flor aquilo que na realidade é uma inflorescência.

Esta é a família de dicotiledóneas que mais espécies compreende, cerca de 23000 em 1500 géneros. Como seria de esperar por estes números, os seus representantes existem em todo o mundo e estamos constantemente a cruzarmo-nos com eles. Claro que nem todos são vistosos como aquelas ornamentais; muitas espécies são até bastante inconspícuas, porém há uma certa exuberância associada a esta família, que podemos testemunhar ao perscrutar os vários habitats de Portugal.

A região mediterrânica é um dos centros de diversificação da família e apresenta assim muitas espécies. Algumas tribos (subdivisão da família) e géneros evoluíram nesta região, tendo originado muitas espécies endémicas de locais mais ou menos restritos. O género Centaurea, com quase 500 espécies, é exemplo de um género principalmente centrado na região mediterrânica, tendo 26 espécies nativas do nosso país, das quais 5 são endémicas de algumas regiões, número que já inclui a muito recentemente descoberta Centaurea occasus, endémica de uma pequena área no Algarve.

Muitas espécies de compostas são cultivadas nos jardins, sendo uma boa parte destas originária de África do Sul, uma outra região também pródiga nesta família, onde a exuberância das flores ainda é mais exagerada.

A maioria das espécies da família consiste em ervas, por vezes lenhosas. No entanto, podem ser arbustos, lianas (como alguns Senecio sul-africanos cultivados nos nossos jardins) e até árvores, como é o caso dos géneros Montanoa, do México, Brachylaena, de África, e outros.

Em Portugal continental pode-se afirmar que são quase todas ervas, frequentemente anuais, ocorrendo algumas espécies de porte subarbustivo ou arbustivo, como as perpétuas-das-areias (Helichrysum spp.) facilmente observáveis em dunas bem conservadas, estevais e outros matos; e a Stahelina dubia, das encostas calcárias muito quentes e secas.

O que faz as compostas tão especiais?
Como já foi ligeiramente abordado, as compostas têm um arranjo floral distintivo, quase único, e que é o elo comum a todas as espécies desta família – o capítulo. O capítulo é um tipo de inflorescência que se caracteriza, em linhas gerais, por apresentar muitas flores reduzidas agrupadas de uma forma muito compacta directamente sobre um disco (receptáculo). As flores periféricas deste disco frequentemente apresentam um prolongamento unilateral (lígula), o que, no conjunto, dá o aspecto semelhante a uma flor “normal”. Dado que o número de flores na periferia é variável, o número de “pétalas” (lígulas) também o é, o que muito raramente acontece em outras famílias.

Toda esta estrutura está envolvida por brácteas (folhas modificadas com função de protecção) que aqui exercem uma função análoga às sépalas das flores “normais”.

Esquema geral de um capítulo, em dois estádios do desenvolvimento – em flor (na ântese) e aquando da maturação dos frutos. O esquema foi inspirado nas características de várias espécies, para mostrar um pouco da variação que pode haver. As flores e frutos foram desenhados afastados para melhor compreensão; na realidade, estes encontram-se dispostos de forma compacta.
O capítulo, então, assemelha-se em forma e função a uma só flor, no entanto, é constituído por um agregado de inúmeras pequenas flores, em que geralmente as externas se tornam vistosas pelo desenvolvimento da lígula, e as internas são pequenas e pouco vistosas. Esta estratégia, que basicamente é uma divisão de tarefas, reduz o investimento necessário para a atracção dos polinizadores, pois apenas uma pequena porção das flores é que produz uma “pétala”, beneficiando todas as outras desse esforço. Muitas plantas usam estratégias deste tipo, desde a mais simples que consiste simplesmente em agrupar as flores em conjuntos – chamados inflorescências – até às mais complexas como é o caso das compostas, que a levaram ao extremo da especialização. Na família distante das crucíferas (Brassicaceae), as plantas do género Iberis são um exemplo de uma forma menos especializada de atingir o mesmo objectivo com uma estratégia similar às compostas – as flores periféricas da inflorescência têm as suas duas pétalas exteriores marcadamente mais desenvolvidas que as restantes, porém, não havendo uma diferenciação morfológica muito abrupta entre as flores periféricas e as centrais.

Nem todas as espécies das compostas apresentam os capítulos como acima descritos. Uma das tribos tipicamente apresenta todas as flores do capítulo com lígulas, e não só as externas – é o caso dos dentes-de-leão (Taraxacum spp., Leontodon spp.). Um outro grupo não apresenta de todo flores liguladas – caso de muitos cardos, por exemplo (Carduus spp., Cirsium spp.). Um único caso em Portugal tem capítulos com uma só flor – uma espécie particular de cardo (Echinops strigosus).

De resto, as compostas, como provavelmente já se deu a entender, são plantas muito variáveis e por isso, por vezes, podem ser identificadas observando apenas caracteres vegetativos – forma das folhas, sua disposição, hábito da planta, indumento (tipo e densidade de pêlos) … – o que requer alguma experiência, pois é uma família muito numerosa.

Os capítulos não são, porém, exclusivos desta família. Mesmo em Portugal podemos encontrar casos de outras famílias que podem usar este tipo de inflorescência. Nas umbelíferas (Apiaceae), por exemplo, o género Eryngium ao qual pertence o vulgar cardo-rolador das dunas marítimas, apresenta as flores reunidas em capítulo. A família Dipsacaceae, cujo membro mais conhecido é o cardo-penteador (Dipsacus comosus) idem. Claro que existem diferenças ao nível da estrutura das flores que mostram que estas plantas não são compostas, mas tal já não será abordado aqui.

Um outro aspecto particular desta família é o tipo de fruto que produz. Todas as espécies, com única excepção do género sul-africano Chrysanthemoides com apenas duas espécies, produzem um fruto seco com uma só semente, designado por cipsela. Este fruto é disperso muito usualmente pelo vento, ou por animais através da ajuda do papilho – uma estrutura derivada das sépalas que geralmente consiste numa coroa de pêlos que se insere numa das extremidades do fruto (observe-se o fruto do dente-de-leão). Mais uma vez, o papilho não é exclusivo das compostas; pode também ser encontrado nas valerianas (Valerianaceae) uma estrutura de origem, forma e função quase idênticas.

As compostas têm uma grande diversidade de espécies. Devido a tal, a família tem sido dividida em tribos, que agrupam as espécies de acordo com algumas características que provaram ser suficientemente constantes ao longo dos géneros de uma tribo, mas suficientemente distintas entre tribos. As tribos correspondem, no geral, aos “tipos” de compostas que facilmente reconhecemos empiricamente, por isso optou-se aqui por falar um pouco das espécies portuguesas sob esta perspectiva.

Entre as compostas que mais facilmente se podem ver no campo estão diversas espécies afins dos malmequeres – tribo Anthemideae – sendo também as compostas cuja aparência é mais típica. Morfologicamente caracterizam-se por terem as flores periféricas liguladas (geralmente brancas) e as centrais não liguladas, (amarelas) e por nunca terem o papilho composto por pêlos (pode estar ausente ou ser composto de pequenas escamas). Podem enumerar-se Anacyclus clavatus, Chamaemelum mixtum, Chrysanthemum coronarium e Anthemis arvensis, como as mais frequentes, mas muito mais espécies com flores similares e difíceis de distinguir existem. Estas plantas são habitantes usuais das searas, pastagens, prados e montados. Chrysanthemum coronarium é uma das poucas espécies que se identificam prontamente devido às suas pétalas geralmente bicolores.

Crisântemo (Chrysanthemum coronarium), uma composta anual frequente em pastagens e montados.
Algumas outras espécies, também desta tribo, similares a estas mas de flores totalmente amarelas são igualmente frequentes, como é o caso de Coleostephus myconis, Chrysanthemum segetum e Anacyclus radiatus, entre outras também típicas dos mesmos habitats.

As margaridas (espécies do género Bellis) são também frequentes, nomeadamente a Bellis perennis que habita quase sempre nos relvados das cidades. Pertencem a uma tribo semelhante à anterior (Astereae) da qual se diferenciam por características mais minuciosas.

Um outro tipo muito comum de compostas é o grupo a que pertence o dente-de-leão – tribo Lactuceae. São plantas com flores todas liguladas, amarelas ou azuis, e que quando feridas exsudam um látex branco. O exemplo mais comum é a alface (Lactuca sativa), mas muitas outras povoam os campos e mesmo os jardins das cidades. O taráxaco, ou dente-de-leão (Taraxacum officinalis), a chicória (Cichorium intybus) e a serralha (Sonchus oleraceus) são três que se podem encontrar com muita frequência nas cidades, as duas primeiras nos relvados. A chicória, com as suas flores azuis no Verão, é inconfundível. Fora das cidades, em sítios secos mais naturais, realçam-se apenas os géneros Leontodon (L. longirrostris), Reichardia, Hypochaeris (H. glabra) e Crepis (C. vesicaria), todas de flores amarelas similares às do dente-de-leão; por serem muito frequentes. A sua distinção, bem como a das espécies de cada género, requer uma análise mais cuidada da planta em causa.

Tragopogon hybridus, uma composta da tribo Lactuceae mais ou menos frequente em pousios secos.
As plantas geralmente designadas por cardos também pertencem, na maioria, a uma tribo própria – Cardueae – embora nem todos os seus representantes sejam espinhosos. As características mais marcantes desta tribo são a ausência de flores liguladas que são substituídas por flores tubulosas, as quais são sempre, nesta tribo, bastante compridas. A maioria das plantas desta tribo é, de facto, espinhosa, pelo menos no capítulo. Os exemplos mais frequentes habitam pastagens e matos abertos – as alcachofras (Cynara spp., sendo a mais frequente C. humilis e onde se inclui também o cardo do queijo, C. cardunculus), Carduus tenuiflorus, Galactites tomentosa, Atractylis gummifera e Carlina corymbosa – mas existem várias espécies e géneros similares às referidas, pelo que a sua identificação não é tão directa. Outras espécies preferem sítios menos secos, como o cardo-mariano (Sylibum marianum) e as espécies do género Cirsium em geral. O género já referido Centaurea pertence a esta tribo e tem bastantes espécies no nosso país, sendo a mais comum C. pullata, em pastagens.

Cardo-coroado (Atractylis cancellata), um pequeno cardo anual, infrequente, habitante de zonas pedregosas secas e quentes.
Ainda que existam mais tribos em Portugal, refere-se por fim a tribo Gnaphalieae, que inclui plantas de aspecto cinzento-azulado devido aos densos pêlos lanosos com que se cobrem, e cujas flores são muito pequenas e inconspícuas, todas não liguladas. As perpétuas-das-areias (Helichrysum italicum e H. stoechas), bem como o alecrim-das-paredes (Phagnalon saxatile) são as plantas mais “visíveis” desta tribo, sendo pequenos arbustos de zonas rochosas ou arenosas e até dunas, no caso de Helichrysum. No entanto, existem várias espécies anuais bastante pequenas que habitam pastagens e matos abertos, e que é necessário alguma atenção para as ver. Pertencem aos géneros Logfia, Filago e Evax e todas elas apresentam o característico aspecto cinzento-azulado, tal como as anteriores.

As compostas são uma família rica em endemismos nacionais, bem como em espécies raras, sendo alguns géneros mais propícios a este tipo de fenómenos, como Serratula e Centaurea. No entanto, as maiores raridades estão dispersas por vários géneros. É difícil quantificar ou mesmo qualificar quais são as espécies mais raras, precisamente porque raramente são vistas e pouco se sabe sobre elas. Aqui referem-se algumas que reconhecidamente cabem nesta categoria, mas muitas outras haverá.

Nos calcários a norte do Tejo surge uma planta estranha, de grandes e vistosas flores amarelas, à qual foi atribuída uma subespécie própria – Senecio doronicum subsp. lusitanicus. A subespécie irmã S. doronicum subsp. doronicum, que não existe em Portugal, é uma planta alpina que habita nas montanhas da Europa em geral, nomeadamente nos Alpes. No entanto, apesar de em Portugal as serras calcárias não chegarem aos 700 m de altitude, esta planta está cá e é apenas ligeiramente diferente da sua congénere, pelo que se considera apenas como subespécie, neste caso endémica. A sua ocorrência é francamente pontual, principalmente na região a norte de Lisboa, e geralmente nas cumeadas mais altas e expostas. Embora apareça em núcleos com um razoável número de indivíduos, é muito rara no global, e pode-se considerar que esteja em perigo de se extinguir.

Na mesma onda de pensamento, há uma outra espécie tão ou mais rara que a anterior, igualmente alpina mas que não especiou em Portugal, sendo a mesma que actualmente se encontra nas montanhas da Europa – Inula montana. A ocorrência em Portugal limita-se a alguns núcleos muito pequenos na área do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, bem como alguns núcleos em Trás-os-Montes, estando, no geral, em vias de desaparecer do nosso país.

Senecio doronicum subsp. lusitanicus, uma composta raríssima que ocorre em alguns cabeços calcários.
Esquecendo as espécies de montanha, que foram aqui apenas ligeiramente abordadas, temos também outro tipo de raridades. Leuzea longifolia é um endemismo português considerado em perigo de extinção, e é uma das plantas mais raras de Portugal. Ecologicamente tem preferências por um habitat que está praticamente todo convertido em eucaliptal na região geográfica que a espécie ocupa, sobrevivendo ainda nalguns locais muito pontuais, todos na região de Leiria e um pouco mais a sul. Tal como I. montana, conhecem-se apenas alguns núcleos desta planta, geograficamente afastados, portanto, isolados biologicamente. Cada núcleo é composto por um número muito reduzido de indivíduos, o que, a juntar ao isolamento e à perturbação a que o homem os sujeita, contribui decisivamente para a vulnerabilidade desta planta.

Inula montana, uma composta também raríssima ecologicamente semelhante a S. doronicum.
No sudoeste de Portugal ocorre um outro endemismo desta região. Subindo desde as costas xistosas às serras, encontra-se Centaurea vicentina. É uma planta robusta que vive nos matos baixos em solos secos e pedregosos e que, comparada com as anteriores, nem se pode considerar muito rara. Porém, é de facto um endemismo restrito à vertente costeira das serras, não as passando para o interior, e grande parte da sua área de ocorrência está ocupada com eucalipto. A biologia da espécie, que prefere habitats com alguma perturbação (não é uma espécie de floresta) e o seu estado populacional, que inclui centros de grande abundância, são factores que estão em seu favor.

Leuzea longifolia, um endemismo português raríssimo, em perigo de extinção, que habita matos higrofílicos sobre solos ácidos.
Todavia, talvez uma das mais raras e extraordinárias compostas seja Volutaria crupinoides. Não é de todo endémica, pelo contrário, é a sua distribuição geográfica global bizarra que justifica o seu interesse, para além de ser raríssima em Portugal. É uma planta anual nativa do médio oriente, que habita em afloramentos rochosos das áreas desérticas. Na Europa não terá encontrado nenhum local propício para se estabelecer, mas inesperadamente surge nas arribas da Serra da Arrábida, numa população totalmente isolada. De facto, não é a única planta de climas desérticos que ali está, e talvez não seja a mais fantástica, mas é provavelmente a mais tímida.

Miguel Porto

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Plantas Carnívoras em Portugal

Muitas pessoas têm acerca das plantas carnívoras as ideias mais bizarras. As plantas carnívoras reais estão muito longe de se confundirem com os monstros terríveis que surgem nos filmes de ficção científica... Vale a pena conhecê-las melhor.

Alguns dos relatos onde são descritas plantas carnívoras constituem autênticos desafios à imaginação humana. Estas surgem aos olhos dos leigos como verdadeiras aberrações da natureza, tendo sido consideradas durante séculos como resultado de um milagre da natureza. No entanto, a realidade fica muito aquém das narrativas épicas onde as plantas carnívoras são referidas como terríveis monstros que atraem as vítimas e se alimentam das suas entranhas. Na verdade, estas plantas são, na sua maioria, de porte herbáceo, raramente ultrapassando algumas dezenas de centímetros.

As plantas carnívoras foram descobertas e referenciadas pela primeira vez no séc. XVIII, mais precisamente em 1768, quando o botânico inglês J. Ellis chamou a atenção para o curioso processo de captura de insectos em Dionaea muscipula. Desde essa data, mais de seis centenas de espécies de plantas foram estudadas e adicionadas ao rol das consideradas carnívoras. Estas plantas constituem um grupo botânico sem qualquer significado taxonómico, dado que o carnivorismo nas plantas parece ter resultado de evolução convergente, ou seja, ao longo dos tempos a selecção natural foi favorecendo a sobrevivência de plantas oriundas de famílias diferentes, mas que conseguiam capturar e digerir pequenos animais.

Apesar desta curiosa capacidade de se nutrir de animais, propriedade que era tida como exclusiva do reino animal, as plantas carnívoras mantêm todas as características de qualquer outro ser vivo do reino vegetal: são plantas verdes onde ocorre fotossíntese. Contudo, para assegurar a sua vitalidade e sobrevivência, estas plantas necessitam de completar o seu metabolismo com os aminoácidos resultantes da digestão de pequenos animais, que ocorre nas folhas, em zonas glandulares, caracterizadas por intensa actividade de enzimas proteases e fosfatases que digerem as presas. Vários estudos têm demonstrado que a nutrição heterotrófica aumenta o crescimento e desenvolvimento destas plantas e, em algumas espécies, parece ser essencial para que ocorra a floração, ou seja, a possibilidade de perpetuar a espécie. Por esta razão, o carnivorismo nas plantas é encarado como uma adaptação nutricional relacionada com os solos deficientes em azoto, como acontece com as zonas pantanosas e turfeiras onde ocorre a maioria das plantas carnívoras conhecidas.

As folhas das plantas carnívoras são comummente o local de captura das presas (armadilhas), apresentando adaptações morfológicas e fisiológicas mais ou menos especializadas na atracção, captura e digestão dos animais. As armadilhas estão, geralmente, recobertas por mucilagem, uma espécie de cola que retém as presas, e podem possuir movimento, aumentando dessa forma a eficácia da captura dos insectos. No entanto, não basta ter armadilhas eficazes, é necessário conseguir atrair até elas as respectivas presas, assim, é comum as plantas carnívoras exalarem odores característicos, de matéria orgânica em decomposição ou adocicados, que funcionam como chamariz para a maioria dos insectos.

Actualmente, conhecem-se cerca de seiscentas espécies de plantas consideradas carnívoras que se distribuem pelos cinco continentes. A Austrália é o local onde existe maior variedade específica, albergando cerca de um terço de todas as espécies conhecidas. Para Portugal estão referenciadas oito espécies de plantas carnívoras espontâneas, pertencentes a duas famílias (Droseraceae e Lentibulariaceae), no entanto, a ausência de estudos recentes de biologia, ecologia e distribuição não permite afirmar, com absoluta certeza, que todas essas espécies ainda possam ser encontradas em território nacional.

De modo a desvendar o misterioso mundo das plantas carnívoras que ocorrem em Portugal, sugere-se, seguidamente, uma breve caracterização das diferentes espécies. Esta interessante viagem inicia-se pelas orvalhinhas, pertencentes à família Droseraceae, que são pequenas plantas carnívoras que surgem em locais húmidos ou pantanosos. Tratam-se de plantas com uma distribuição ubíqua e das cerca de noventa espécies conhecidas podemos encontrar duas em Portugal (Drosera rotundifolia e D. intermédia), que são designadas vulgarmente pelo mesmo nome vernáculo: orvalhinhas. No nosso País, as duas espécies de orvalhinhas encontram-se quase confinadas ao norte do rio Tejo, sendo que a D. rotundifolia surge quase exclusivamente a norte do rio Vouga. São plantas vivazes que raramente ultrapassam os vinte centímetros de diâmetro. As suas folhas modificadas, com uma forma idêntica à mão humana, encontram-se recobertas por aproximadamente duzentas glândulas pediculadas recobertas por mucilagem. Logo após o contacto com a presa, geralmente pequenos insectos que pousam inadvertidamente sobre as folhas, as glândulas pediculadas começam a curvar-se de modo a envolver a preciosa “refeição”. Segue-se a acção das enzimas digestivas que são libertadas pelas glândulas e a absorção dos produtos assimiláveis. Findo todo este processo, as glândulas e a folha retomam a posição inicial, sendo bastante comum encontrar os restos mortais (esqueletos quitinosos) dos últimos insectos que foram capturados e digeridos pela planta.

Ainda na família Droseraceae é importante salientar a ocorrência de um endemismo ibero-marroquino: a erva-pinheira-orvalhada (Drosophyllum lusitanicum Link.). Esta designação vernácula por que é conhecida deve-se ao facto da planta estar coberta por gotas brilhantes de mucilagem, fazendo lembrar o orvalho matinal. É uma planta com cerca de vinte a trinta e cinco centímetros de altura, que ocorre em solos secos, siliciosos ou xistosos, estando confinada a algumas populações isoladas ao longo de uma estreita faixa litoral do nosso País. A quase totalidade dos estudos existentes sobre esta planta resultou do trabalho de botânicos portugueses, tais como: o Prof. Carlos França, o Prof. Aurélio Quintanilha e o Prof. Abílio Fernandes.

As restantes carnívoras que ocorrem espontaneamente em solo lusitano incluem-se na família Lentibulariaceae. Trata-se de uma família com enorme heterogeneidade morfológica, onde se incluem plantas que vivem quer em lugares húmidos (por ex. as pinguicolas) quer completamente submersas (por ex. as utriculárias).

As pinguicolas são apenas encontradas no hemisfério norte, com excepção de três espécies sul americanas. No nosso país encontram-se apenas duas espécies (Pinguicula vulgaris e P. lusitanica) das cerca de trinta conhecidas. São pequenas plantas perenes com raízes pouco desenvolvidas e que se distinguem facilmente das outras plantas por apresentarem uma pequena roseta de folhas aplicadas ao solo, do centro da qual emerge, na época da floração, a respectiva haste floral que suporta uma única flor. As folhas são geralmente de cor verde-clara e apresentam os bordos ligeiramente enrolados, encontrando-se a página superior revestida por glândulas que produzem mucilagem que funciona como primeiro mecanismo de captura dos insectos. Após sentir a presença dos insectos a debaterem-se para se libertarem do visco que os mantém aprisionados, inicia-se o enrolamento da folha de modo a envolver melhor as presas nas enzimas digestivas. Os insectos parecem ser atraídos para as folhas das pinguicolas através de um intenso odor a cogumelos putrefactos exalado pela planta. A outra espécie, P. vulgaris, possui um aspecto bastante similar à anterior, distinguindo-se dela apenas pelas suas maiores dimensões e pela cor mais escura das suas flores. A P. vulgaris é indubitavelmente a planta carnívora mais rara do nosso país, uma vez que só é conhecida uma única localização em Portugal. Já o mesmo não acontece com a P. lusitanica, que possui várias localizações ao longo do litoral a norte do rio Vouga. Aliás, esta espécie encontra-se habitualmente associada às orvalhinhas, uma vez que ambas possuem idênticas exigências edáficas e climáticas.

Para concluir esta breve viagem pelo panorama nacional das plantas carnívoras, resta conhecer as utriculárias que pertencem a um género com uma distribuição ubíqua e que inclui o maior número de espécies: cerca de trezentas. Em Portugal podem encontrar-se três dessas espécies (Utricularia subulata, U. gibba e U. australis). A primeira é um geófito de caules capilares e subterrâneos, que se julga poder já estar extinta no nosso País, uma vez que não é observada em território nacional desde a década de quarenta do século passado, enquanto as duas últimas são hidrófitos submersos ou flutuantes que habitam as lagoas e pântanos de água doce. Pelo facto de viverem totalmente imersas, estas plantas são das mais desconhecidas de todas as plantas carnívoras, uma vez que são difíceis de observar, excepto na época de floração, que vai de Junho a Setembro, em que as flores de cor amarelada se elevam acima da superfície da água denunciando a sua presença. As utriculárias são desprovidas de raízes e possuem um caule muito fino sobre o qual se inserem, alternadamente, formações foliáceas. Distribuídas com uma certa regularidade e ligadas aos lóbulos foliares por curtos pedúnculos, encontram-se pequenas vesículas ou utrículos, que constituem armadilhas altamente especializadas, com que estas plantas capturam as suas presas aquáticas: crustáceos e larvas de insectos. Dado o elevado número de espécies existentes neste género, é natural que exista uma enorme variedade morfológica de utriculárias, no entanto, o funcionamento das suas armadilhas é idêntico em todas elas: os utrículos são pequenos «sacos» com uma única abertura, junto à qual existem, habitualmente, pêlos sensitivos que detectam a presença das pequenas presas; quando algum animal aquático estimula os pêlos sensitivos, o utrículo aspira-o em milésimos de segundo; enquanto a presa se vai debatendo no interior do utrículo, a planta vai libertando as enzimas digestivas que acabam por matar e digerir a próxima «refeição» e para concluir todo este minucioso processo, resta à planta absorver os nutrientes do interior da sua esmerada armadilha.

O estudo das plantas carnívoras em Portugal teve o seu período áureo nas décadas de vinte e de quarenta do século passado, seguindo-se um total marasmo ao nível da investigação que se mantém até aos nossos dias. Por esta razão não é possível ter dados actualizados sobre estas plantas, a não ser informações esporádicas oriundas de pequenas investigações botânicas que vão sendo realizadas em algumas regiões do país.

Segundo prospecções mais recentes, referentes às províncias situadas a norte do rio Douro, constata-se que em muitas das localizações identificadas no século passado estas plantas já se extinguiram. Só para referir alguns exemplos, poder-se-á afirmar, com grande certeza, que a D. intermédia, a U. australis e a P. lusitanica já desapareceram dos arredores do Porto (Boa Nova, Pedras Rubras e Santa Cruz do Bispo). Também o D. lusitanicum existente na serra de Santa Justa, em Valongo, corre o risco de desaparecer devido à deposição ilegal de resíduos, à movimentação de terrenos e ao pisoteio resultante da prática de actividades de ar livre. Numa das suas localizações conhecidas nesta serra, a espécie já se encontra extinta.

Se fosse possível fazer um levantamento completo da distribuição das plantas carnívoras em Portugal, não seria difícil adivinhar que muitas outras populações, de todas as espécies de plantas carnívoras que surgem espontaneamente no nosso País, teriam já desaparecido devido a múltiplas causas que constituem ameaças directas ou indirectas às plantas e aos seus habitats: a drenagem de pântanos e de zonas húmidas, o desenvolvimento e expansão dos centros urbanos e redes rodoviárias, o abate de florestas autóctones para implementação de monoculturas com espécies exóticas e os inúmeros incêndios que têm afectado Portugal nestes últimos anos, são apenas alguns exemplos. Dada a reduzida distribuição geográfica da maioria das plantas carnívoras em Portugal, seria necessário e desejável despertar novamente o interesse por este curioso grupo botânico que há muito deixou de ser visto como um milagre da natureza e que vai desaparecendo silenciosamente do nosso património botânico sem, muitas vezes, sequer ter sido visto e conhecido pela esmagadora maioria dos portugueses que geralmente até desconhece que estas plantas (ainda) existem em Portugal.

Jorge Nunes

Matos Mediterrânicos

Os matos ocupam na maior parte dos casos os chamados terrenos incultos, são frequentemente considerados inúteis, e estão associados ao abandono e à degradação do meio. Escondem muitas surpresas.

Na região Mediterrânica ocorrem várias formações vegetais arbustivas, que muitas vezes surgem como resultado das acções humanas, mas também devido às limitações impostas pelas condições ambientais. As variadas estruturas vegetais arbustivas são denominadas por um conjunto de diferentes nomes ao longo das várias zonas da bacia Mediterrânica.

Na maioria dos países mediterrânicos distinguem-se os matos como fases degradativas da floresta:

1ª fase - Matagal; Mato Alto; Maquis; Macchia; Chaparral - com espécies de estrato arbustivo.
2ª fase - Charneca; Mato Baixo; Garrigue; Phrygarra; Tomilhares; Bath'a - com subarbustos na sua maior parte odoríferos.

Na fitossociologia, na geografia e comummente em França, distingue-se o Maquis do Garrigue consoante as características do solo que os matos ocupam, levando a que estes matos tenham diferentes estruturas.

O Maquis é um mato que se desenvolve em solos ácidos e siliciosos. Consiste numa densa e muitas vezes impenetrável massa de pequenas árvores e arbustos com uma grande diversidade de plantas rasteiras e trepadoras. Este coberto vegetal pode ter entre 3 e 5 metros de altura. O Maquis, assim definido, não deixa de ser um Mato Alto, que corresponde no nosso país a uma floresta degrada onde predominou outrora o sobreiro que ocupa espontaneamente estes solos.

O Garrigue é uma formação vegetal mais aberta, que se desenvolve em solos calcários, alcalinos e pedregosos, constituída por arbustos de pequeno porte que nos chegam à cintura ou apenas ao joelho, muitas vezes apresentando-se como pequenos tufos esparsos entre as manchas de erva. O Garrigue corresponde normalmente à floresta degradada de azinheiras.

Em Espanha, o termo Matorral engloba todas estas formas de matos. Como já foi referido, os matos mediterrânicos são frequentemente criados a partir de imposições naturais (por exemplo, solos calcários e clima mediterrânico nos garrigues) e imposições humanas (pastoreio, cortes e queimadas). Os matos podem ser considerados como uma série de vegetação, em que as comunidades características que os constituem são diferentes de outras séries.

No Mediterrâneo, ao longo de séculos os bosques primitivos foram sendo arroteados e convertidos em sistemas agrícolas e de pastoreio. Devido a estas actividades, as florestas primitivas não se encontram normalmente preservadas e estes matos, ou etapas de substituição, muitas vezes não poderão evoluir para o seu clímax local potencial, principalmente devido às limitações do solo. As desmatações e as mobilizações sucessivas do solo levaram em muitos casos à decapitação dos solos e ao abandono agrícola (também consequente da degradação dos solos), e assim, criaram condições para a instalação de carácter permanente dos matorrais.

Os matos são por vezes formações pobres, que apesar de terem a capacidade de recuperar espontaneamente quando cessa a intervenção humana, estagnam com as mesmas comunidades devido as adversas condições do meio, onde apenas as espécies destes matos subsistem. Assim deparamos com uma dualidade nesta questão: a intervenção e a não intervenção do Homem. A história do uso do solo num dado local tem um papel fulcral na criação das condições para a invasão dos matos, mas devido à degradação do meio e apesar dos inúmeros percursos de sucessão possíveis na região mediterrânica, na maior parte dos casos nunca os matos evoluirão para uma verdadeira floresta, como já terá existido, sem uma séria intervenção do Homem, isto sem referir o ritmo a que a sucessão natural se processaria.

Por outro lado, os matos têm uma utilidade própria. Os arbustos foram explorados pelo homem, para obtenção de lenha, carvão, de camas para o gado e para ajudar a preparar estrumes. A erva é pastoreada pelo gado, e muitas plantas disponibilizam frutos para comer, óleos, gomas, corantes, fibras têxteis, produtos apícolas, etc.

Hoje em dia, os matos não são abrangidos, ou quase, pelas prioridades da Política Agrícola Comum (PAC), nem lhes são associados noções de rentabilidade, pelo que não existe incentivo para os gerir.

Mesmo assim, continuam a ser um ecossistema interessante. Sobretudo os matagais desenvolvidos, são muitas vezes atractivos para os animais silvestres por conterem praticamente toda a gama de formas de crescimento vegetal (plantas anuais, bolbos, ervas perenes, arbustos e árvores), que proporcionam mosaicos interessantes para a fauna. Mas, outras vezes, também apresentam uma fraca variedade de essências e/ou com a pouca disponibilidade de água, e ainda com a sua estrutura muito uniforme, que não lhes permite apresentar uma maior biodiversidade, favorecendo apenas um determinado conjunto de espécies de fauna e flora. Esta última situação pode ser interessante para o conjunto de espécies favorecido, mas o rompimento das componentes da paisagem uniforme e a melhoria de determinadas condições físicas e estruturais poderia resultar numa maior diversidade biológica.

Na Primavera, principalmente quando nos referimos aos Garrigues, apresentam uma larga gama de cores, com as florações amarelas, azuis e vermelhas em contraste com a cor verde que domina noutras alturas, ou com a erva ressequida do Verão. Nos matos baixos, dominam os carrascos e as plantas aromáticas como o rosmaninho a alfazema, as estevas, os tomilhos, etc., e nos matos mais altos também as estevas mas com urzes arbóreas e por vezes os povoamentos de medronheiros.

Nuno Leitão
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Mensagens populares